FGV 2025.2Questão 22de 60Observando-se o desenrolar da narrativa, verifica-se que o narrador deu a essa cena de conflito um desenvolvimento
LinguagensRomantismo
Numeração da prova tipo 1.
Texto das questões 22 a 27
Tendo apanhado sua mulher Maria em flagrante adultério, Leonardo, enfurecido, desencadeia o conflito narrado nas cenas do romance aqui reproduzidas, das quais participam ele próprio, a Maria, o Leonardo (filho) e o compadre barbeiro, padrinho do menino e vizinho da família.
- Isto exasperou o Leonardo; a lembrança do amor aumentou-lhe a dor da traição, e o ciúme e a raiva de que se achava possuído transbordaram em socos sobre a Maria, que depois de uma tentativa inútil de resistência desatou a correr, a chorar e a gritar:
- — Ai... ai... acuda, Sr. compadre... Sr. compadre!...
- Porém o compadre ensaboava nesse momento a cara de um freguês, e não podia largá-lo. Portanto a Maria pagou caro e por junto todas as contas. Encolheu-se a choramingar em um canto.
- O menino assistira a toda essa cena com imperturbável sangue-frio: enquanto a Maria apanhava e o Leonardo esbravejava, aquele ocupava-se tranquilamente em rasgar as folhas dos autos que este tinha largado ao entrar, e em fazer delas uma grande coleção de cartuchos.
- Quando, esmorecida a raiva, o Leonardo pôde ver alguma coisa mais do que seu ciúme, reparou então na obra meritória em que se ocupava o pequeno. Enfurece-se de novo: suspendeu o menino pelas orelhas, fê-lo dar no ar uma meia volta, ergue o pé direito, assenta-lhe em cheio sobre os glúteos atirando-o sentado a quatro braças de distância.
- — És filho de uma pisadela e de um beliscão; mereces que um pontapé te acabe a casta.
- O menino suportou tudo com coragem de mártir, apenas abriu ligeiramente a boca quando foi levantado pelas orelhas: mal caiu, ergueu-se, embarafustou pela porta fora, e em três pulos estava dentro da loja do padrinho, e atracando-se-lhe às pernas. O padrinho erguia nesse momento por cima da cabeça do freguês a bacia de barbear que lhe tirara dos queixos: com o choque que sofreu a bacia inclinou-se, e o freguês recebeu um batismo de água de sabão.
- — Ora, mestre, esta não está má!...
- — Senhor, balbuciou este... a culpa é deste endiabrado... O que é que tens, menino?
- O pequeno nada disse; dirigiu apenas os olhos espantados para defronte, apontando com a mão trêmula nessa direção.
- O compadre olhou também, aplicou a atenção, e ouviu então os soluços da Maria.
- — Ham! resmungou; já sei o que há de ser... eu bem dizia... ora ai está!...
- E desculpando-se com o freguês saiu da loja e foi acudir ao que se passava.
- Por estas palavras vê-se que ele suspeitara alguma coisa; e saiba o leitor que suspeitara a verdade.
- Espiar a vida alheia, inquirir dos escravos o que se passava no interior das casas, era naquele tempo coisa tão comum e enraizada nos costumes, que ainda hoje, depois de passados tantos anos, restam grandes vestígios desse belo hábito. Sentado pois no fundo da loja, afiando por disfarce os instrumentos do ofício, o compadre presenciara os passeios do sargento por perto da rótula de Leonardo, as visitas extemporâneas do colega deste, e finalmente os intentos do capitão do navio. Por isso contava ele mais dia menos dia com o que acabava de suceder.
- Chegando ao outro lado da rua empurrou a rótula que o menino ao sair deixara cerrada, e entrou. Dirigiu-se ao Leonardo, que se conservava ainda em posição hostil.
- — Ó compadre, disse, você perdeu o juízo?...
- — Não foi o juízo, disse o Leonardo em tom dramático, foi a honra!...
- A Maria, vendo-se protegida pela presença do compadre, cobrou ânimo, e altanando-se disse em tom de zombaria:
- — Honra!... honra de meirinho... ora!
- O vulcão de despeito que as lágrimas da Maria tinham apagado um pouco, borbotou de novo com este insulto, que não ofendia só um homem, porém uma classe inteira! Injúrias e murros à mistura caíram de novo sobre a Maria das mãos e da boca de Leonardo. O compadre, que se interpusera, levou alguns por descuido; afastou-se pois a distância conveniente, murmurando despeitado por ver frustrados seus esforços de conciliador:
- — Honra de meirinho é como fidelidade de saloia.
Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias.
Glossário: Saloia: aldeã; pessoa finória, desonesta. Meirinho: espécie de oficial de justiça da época.
Observando-se o desenrolar da narrativa, verifica-se que o narrador deu a essa cena de conflito um desenvolvimento de caráter
- Alternativa A, a correta: cômico.Resposta
- Alternativa B: épico.
- Alternativa C: trágico.
- Alternativa D: incongruente.
- Alternativa E: melancólico.
Pede-se o caráter que o narrador dá ao desenvolvimento da cena de briga entre Leonardo e Maria, em Memórias de um sargento de milícias.
Como a cena é contada:
A violência existe, mas é narrada com exagero e graça, sem consequência grave. O menino rasga os autos para fazer "uma grande coleção de cartuchos"; o pai o arremessa "a quatro braças de distância"; na barbearia, o freguês recebe "um batismo de água de sabão". Leonardo diz "em tom dramático" que perdeu "a honra", e Maria responde com deboche: "Honra!... honra de meirinho... ora!". O compadre, conciliador, leva murros "por descuido" e fecha a cena com "Honra de meirinho é como fidelidade de saloia". O narrador ainda ironiza a bisbilhotice, "esse belo hábito".
O efeito é de comédia de costumes: a solenidade é sempre desmontada pelo ridículo.
Conferindo a alternativa:
A) cômico: exagero, situações ridículas e falas que desmontam a solenidade. Correta.
B) épico: não há heroísmo nem grandeza; o "tom dramático" de Leonardo é logo ridicularizado. Incorreta.
C) trágico: a violência não leva a desfecho grave nem a sofrimento que o texto leve a sério; tudo acaba em deboche. Incorreta.
D) incongruente: a cena é coerente, cada ação provoca a seguinte (a surra, a fuga do menino, a água no freguês, a chegada do compadre). Incorreta.
E) melancólico: não há tristeza nem nostalgia; até os soluços de Maria viram "tom de zombaria". Incorreta.
Confere com o gabarito oficial preliminar da FGV. Ver o caderno da banca
