FGV 2025.2Questão 28de 60No parágrafo que se inicia com “E o mugido lúgubre (...)”, é marca bastante saliente do Naturalismo em literatura
LinguagensRealismo
Numeração da prova tipo 1.
Texto das questões 28 a 30
— Ai, o meu rico homem! E o mugido lúgubre daquela pobre criatura abandonada antepunha à rude agitação do cortiço uma nota lamentosa e tristonha de uma vaca chamando ao longe, perdida ao cair da noite num lugar desconhecido e agreste. Mas o trabalho aquecia já de uma ponta à outra da estalagem; ria-se, cantava-se, soltava-se a língua; o formigueiro assanhava-se com as compras para o almoço; os mercadores entravam e saíam: a máquina de massas principiava a bufar. E Piedade, assentada à soleira de sua porta, paciente e ululante como um cão que espera pelo dono, maldizia a hora em que saíra da sua terra, e parecia disposta a morrer ali mesmo, naquele limiar de granito, onde ela, tantas vezes, com a cabeça encostada ao ombro do seu homem, suspirava feliz, ouvindo gemer na guitarra dele os queridos fados de além-mar. E Jerônimo não aparecia. Ela ergueu-se finalmente, foi lá fora ao capinzal, pôs-se a andar agitada, falando sozinha, a gesticular forte. E nos seus movimentos de desespero, quando levantava para o céu os punhos fechados, dir-se-ia que não era contra o marido que se revoltava, mas sim contra aquela amaldiçoada luz alucinadora, contra aquele sol crapuloso, que fazia ferver o sangue aos homens e metia-lhes no corpo luxúrias de bode. Parecia rebelar-se contra aquela natureza alcoviteira, que lhe roubara o seu homem para dá-lo a outra, porque a outra era gente do seu peito e ela não. E maldizia soluçando a hora em que saíra da sua terra; essa boa terra cansada, velha como que enferma; essa boa terra tranquila, sem sobressaltos nem desvarios de juventude. Sim, lá os campos eram frios e melancólicos, de um verde alourado e quieto, e não ardentes e esmeraldinos e afogados em tanto sol e em tanto perfume como o deste inferno, onde em cada folha que se pisa há debaixo um réptil venenoso, como em cada flor que desabotoa e em cada moscardo que adeja há um vírus de lascívia.
Aluísio Azevedo, O cortiço.
No parágrafo que se inicia com “E o mugido lúgubre (...)”, é marca bastante saliente do Naturalismo em literatura a reiterada
- Alternativa A, a correta: animalização de seres humanos.Resposta
- Alternativa B: ênfase nas necessidades fisiológicas das personagens.
- Alternativa C: definição das mulheres como seres inferiores aos homens.
- Alternativa D: exacerbação da idealização das relações amorosas.
- Alternativa E: apologia das virtudes do trabalho, na vida social.
Pede-se a marca do Naturalismo que aparece repetida no parágrafo iniciado por "E o mugido lúgubre (...)", de O cortiço.
O que o parágrafo faz com as personagens:
Piedade, abandonada por Jerônimo, é descrita repetidas vezes como bicho. O choro dela é "o mugido lúgubre daquela pobre criatura", comparado a "uma nota lamentosa e tristonha de uma vaca chamando ao longe". Sentada à porta, ela está "paciente e ululante como um cão que espera pelo dono" (ululante: que uiva). E os moradores do cortiço viram um bicho coletivo: "o formigueiro assanhava-se com as compras para o almoço".
Por que isso é naturalista:
O Naturalismo, apoiado nas ciências do século XIX (evolucionismo, determinismo), vê o ser humano como um animal movido por instintos e moldado pelo meio. A zoomorfização (comparar pessoas a animais) é o recurso mais frequente de Aluísio Azevedo para mostrar isso, e aqui ela aparece várias vezes seguidas, que é o que o enunciado chama de "reiterada".
Conferindo a alternativa:
A) Correta. Mugido, vaca, cão que uiva e formigueiro: a animalização se repete ao longo do parágrafo.
B) Incorreta. A ênfase nas necessidades do corpo é marca naturalista, mas não está neste parágrafo: Piedade chora, espera e lembra o marido; não há fome, sexo ou excreção descritos. A menção às "luxúrias de bode" está no parágrafo seguinte (e é, ela também, uma animalização).
C) Incorreta. O parágrafo não compara mulheres e homens nem define a mulher como inferior; Piedade aparece como vítima do abandono.
D) Incorreta. O momento feliz ("suspirava feliz, ouvindo gemer na guitarra dele os queridos fados de além-mar") é lembrança, que contrasta com o desespero do presente. A idealização exacerbada do amor é traço romântico, o oposto do Naturalismo.
E) Incorreta. "O trabalho aquecia já de uma ponta à outra da estalagem" só descreve o começo do dia no cortiço; não há elogio ao trabalho, e a agitação é a de um "formigueiro".
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