FGV 2026.1Questão 24de 60CAPÍTULO II DO LIVRO 1. Agora que expliquei o título, passo a escrever o livro. Antes disso, porém, digamos os motivos

LinguagensInterpretação de texto

Numeração da prova tipo 1.

CAPÍTULO II
DO LIVRO

  1. Agora que expliquei o título, passo a escrever o livro. Antes disso, porém, digamos os motivos que me põem a pena na mão. Vivo só, com um criado. A casa em que moro é própria; fi-la construir de propósito, levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo, mas vá lá. Um dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Mata-cavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal destas, a pintura do teto e das paredes é mais ou menos igual, umas grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam nos bicos, de espaço a espaço. Nos quatro cantos do teto as figuras das estações, e ao centro das paredes os medalhões de César, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes por baixo... Não alcanço a razão de tais personagens. Quando fomos para a casa de Mata-cavalos, já ela estava assim decorada; vinha do decênio anterior. Naturalmente era gosto do tempo meter sabor clássico e figuras antigas em pinturas americanas. O mais é também análogo e parecido. Tenho chacarinha, flores, legume, uma casuarina, um poço e lavadouro. Uso louça velha e mobília velha. Enfim, agora, como outrora, há aqui o mesmo contraste da vida interior, que é pacata, com a exterior, que é ruidosa.
  2. O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente.
  3. Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior; é outra coisa. A certos respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memória, conservo alguma recordação doce e feiticeira. Em verdade, pouco apareço e menos falo. Distrações raras. O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e não durmo mal.
  4. Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me também. Quis variar, e lembrou-me escrever um livro. Jurisprudência, filosofia e política acudiram-me, mas não me acudiram as forças necessárias. Depois, pensei em fazer uma História dos Subúrbios, menos seca que as memórias do padre Luís Gonçalves dos Santos, relativas à cidade; era obra modesta, mas exigia documentos e datas, como preliminares, tudo árido e longo. Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que, uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse da pena e contasse alguns. Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras viessem perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o do Fausto: Aí vindes outra vez, inquietas sombras?...
  5. Fiquei tão alegre com esta ideia, que ainda agora me treme a pena na mão. Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande César, que me incitas a fazer os meus comentários, agradeço-vos o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo. Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo. Eia, comecemos a evocação por uma célebre tarde de novembro, que nunca me esqueceu. Tive outras muitas, melhores, e piores, mas aquela nunca se me apagou do espírito. É o que vais entender, lendo.

Machado de Assis, Dom Casmurro.

'Um dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Mata-cavalos'. (1º. parágrafo). Antes de fazer essa declaração, o narrador confessa que se sentiu

  1. Alternativa A: realizado
  2. Alternativa B: orgulhoso
  3. Alternativa C: arrependido
  4. Alternativa D, a correta: envergonhadoResposta
  5. Alternativa E: incompreendido
Resolução do Jazz

Questão sobre Dom Casmurro, de Machado de Assis, identificar o sentimento confessado pelo narrador imediatamente antes de declarar ter reproduzido a casa da Rua de Mata-cavalos no Engenho Novo.

Situando o trecho no romance:

O romance Dom Casmurro abre com o narrador-personagem Bentinho descrevendo o encontro no trem com um jovem poeta que o chama de "Dom Casmurro". Motivado por esse episódio, o narrador decide escrever suas memórias para, como ele mesmo diz, "atar as duas pontas da vida". Ele redige um primeiro capítulo e o mostra a um amigo, e é exatamente nesse ponto que surge o sentimento que a questão pede.

Identificando o sentimento confessado:

O amigo a quem o narrador mostra o capítulo inicial lhe diz, sem cerimônia, que o escrito é "aborrecido". Diante dessa avaliação, o narrador confessa ter sentido vergonha, sentiu-se envergonhado por ter exposto seu trabalho e recebido tal julgamento. É essa confissão de vergonha/constrangimento que antecede imediatamente a decisão de guardar o manuscrito para si e, na sequência, a declaração de que resolveu reproduzir no Engenho Novo a casa em que cresceu na Rua de Mata-cavalos, como forma de tentar reunir as memórias da juventude.

Eliminando as demais alternativas:

  • "Realizado" (A): o narrador não expressa satisfação com sua escrita nesse momento; ao contrário, é criticado.
  • "Orgulhoso" (B): o sentimento é precisamente o oposto do orgulho, pois ele é exposto à crítica negativa.
  • "Arrependido" (C): o texto não registra arrependimento por ter escrito, mas constrangimento por ter mostrado o escrito.
  • "Incompreendido" (E): embora haja uma dimensão de não ser compreendido, o sentimento textualmente confessado é de vergonha, não de incompreensão.

Conclusão:

O sentimento explicitamente confessado pelo narrador Bentinho antes de anunciar a reprodução da casa é a vergonha, decorrente da crítica do amigo ao primeiro capítulo de suas memórias.

Conferindo a alternativa:

A) realizado, não corresponde.
B) orgulhoso, não corresponde.

C) arrependido, não corresponde.

D) envergonhado, corresponde exatamente ao sentimento de vergonha confessado pelo narrador após a crítica do amigo.

E) incompreendido, não corresponde.

O resultado "envergonhado" corresponde à alternativa D.

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Interpretação de texto

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