Para responder às questões de 01 a 07, leia um trecho do romance O cortiço, de Aluísio Azevedo.
Defronte da porta de Rita tinham vindo postar-se diversos moradores do cortiço, jornaleiros de baixo salário, pobre gente miserável, que mal podia matar a fome com o que ganhava. Ainda assim não havia entre eles um só triste. A mulata convidou-os logo a comer um bocado e beber um trago. A proposta foi aceita alegremente.
E a casa dela nunca se esvaziava.
Anoitecia já.
O velho Libório, que jamais ninguém sabia ao certo onde almoçava ou jantava, surgiu do seu buraco, que nem jabuti quando vê chuva.
Um tipão, o velho Libório! Ocupava o pior canto do cortiço e andava sempre a fariscar¹ os sobejos² alheios, filando aqui, filando ali, pedindo a um e a outro, como um mendigo, chorando misérias eternamente, apanhando pontas de cigarro para fumar no cachimbo, cachimbo que o sumítico³ roubara de um pobre cego decrépito. Na estalagem diziam todavia que Libório tinha dinheiro aferrolhado⁴, contra o que ele protestava ressentido, jurando a sua extrema penúria. [...]
Rita fê-lo entrar e deu-lhe de comer e de beber; mas sob condição de que o esfomeado não se socasse demais, para não rebentar ali mesmo.
Se queria estourar, fosse estourar pra longe!
Ele pôs-se logo a devorar, sofregamente, olhando inquieto para os lados, como se temesse que alguém lhe roubasse a comida da boca. Engolia sem mastigar, empurrando os bocados com os dedos, agarrando-se ao prato e escondendo nas algibeiras o que não podia de uma só vez meter para dentro do corpo. [...]
Firmo propôs embebedá-lo, só para ver a sorte que ele daria. O Alexandre e a mulher opuseram-se, mas rindo muito; nem se podia deixar de rir, apesar do espanto, vendo aquele resto de gente, aquele esqueleto velho, coberto por uma pele seca, a devorar, a devorar sem tréguas, como se quisesse fazer provisão para uma outra vida.
De repente, um pedaço de carne, grande demais para ser ingerido de uma vez, engasgou-o seriamente. Libório começou a tossir, aflito, com os olhos sumidos, a cara tingida de uma vermelhidão apoplética⁵. A Leocádia, que era quem lhe ficava mais perto, soltou-lhe um murro nas costas.
O glutão arremessou sobre a toalha da mesa o bocado de carne já meio triturado.
Foi um nojo geral.
— Porco! gritou Rita, arredando⁶-se.
— Pois se o bruto quer socar tudo ao mesmo tempo! disse Porfiro. Parece que nunca viu comida, este animal!
E notando que ele continuava ainda mais sôfrego por ter perdido um instante:
— Espere um pouco, lobo! Que diabo! A comida não foge! Há muito aí com que te fartares por uma vez!
(O cortiço, 2016.)
¹ fariscar: farejar.
² sobejo: sobra, resto de comida.
³ sumítico: avarento.
⁴ aferrolhado: escondido.
⁵ apoplético: que sofreu apoplexia (acidente vascular cerebral).
⁶ arredar: recuar.
No trecho, o personagem Libório é caracterizado como alguém
- Alternativa A: ressentido com a própria pobreza.
- Alternativa B, a correta: que alardeia a própria miséria.Resposta
- Alternativa C: que despreza a piedade alheia.
- Alternativa D: que valoriza a opinião alheia.
- Alternativa E: resignado diante da própria miséria.
O que a questão pede: o traço com que o narrador constrói Libório no trecho.
Onde está no texto: no 5º parágrafo, Libório vive "pedindo a um e a outro, como um mendigo, chorando misérias eternamente" e, quando dizem que ele tem dinheiro guardado, protesta "jurando a sua extrema penúria".
Por que é a letra B: alardear é anunciar com insistência, fazer questão de mostrar. É o que Libório faz com a pobreza: chora misérias "eternamente" e jura que nada tem. O narrador ainda o chama de "sumítico" (avarento) e registra o boato do dinheiro escondido, ou seja, a miséria é exibida de propósito, para continuar filando dos vizinhos.
Por que as outras não:
- A O ressentimento do texto não é com a pobreza: ele protesta "ressentido" contra o boato de que tem dinheiro.
- C Ele não despreza a piedade alheia, vive dela: aceita na hora a comida de Rita e pede a todos.
- D Nada indica que dê valor ao que pensam dele: come como um bicho diante de todos e é chamado de porco sem se abalar.
- E Resignado é quem aceita calado. Libório reclama o tempo todo e corre atrás de sobras.
A armadilha: o erro mais provável é a letra A, porque a palavra "ressentido" aparece no texto. Ela se refere à reação ao boato, não a um sentimento sobre ser pobre.

