Insper 2026.2Questão 6de 60Possui valor possessivo o pronome sublinhado no seguinte trecho
PortuguêsMorfologia
Numeração da versão 1.
Texto das questões 1 a 7
Para responder às questões de 01 a 07, leia um trecho do romance O cortiço, de Aluísio Azevedo.
Defronte da porta de Rita tinham vindo postar-se diversos moradores do cortiço, jornaleiros de baixo salário, pobre gente miserável, que mal podia matar a fome com o que ganhava. Ainda assim não havia entre eles um só triste. A mulata convidou-os logo a comer um bocado e beber um trago. A proposta foi aceita alegremente.
E a casa dela nunca se esvaziava.
Anoitecia já.
O velho Libório, que jamais ninguém sabia ao certo onde almoçava ou jantava, surgiu do seu buraco, que nem jabuti quando vê chuva.
Um tipão, o velho Libório! Ocupava o pior canto do cortiço e andava sempre a fariscar¹ os sobejos² alheios, filando aqui, filando ali, pedindo a um e a outro, como um mendigo, chorando misérias eternamente, apanhando pontas de cigarro para fumar no cachimbo, cachimbo que o sumítico³ roubara de um pobre cego decrépito. Na estalagem diziam todavia que Libório tinha dinheiro aferrolhado⁴, contra o que ele protestava ressentido, jurando a sua extrema penúria. [...]
Rita fê-lo entrar e deu-lhe de comer e de beber; mas sob condição de que o esfomeado não se socasse demais, para não rebentar ali mesmo.
Se queria estourar, fosse estourar pra longe!
Ele pôs-se logo a devorar, sofregamente, olhando inquieto para os lados, como se temesse que alguém lhe roubasse a comida da boca. Engolia sem mastigar, empurrando os bocados com os dedos, agarrando-se ao prato e escondendo nas algibeiras o que não podia de uma só vez meter para dentro do corpo. [...]
Firmo propôs embebedá-lo, só para ver a sorte que ele daria. O Alexandre e a mulher opuseram-se, mas rindo muito; nem se podia deixar de rir, apesar do espanto, vendo aquele resto de gente, aquele esqueleto velho, coberto por uma pele seca, a devorar, a devorar sem tréguas, como se quisesse fazer provisão para uma outra vida.
De repente, um pedaço de carne, grande demais para ser ingerido de uma vez, engasgou-o seriamente. Libório começou a tossir, aflito, com os olhos sumidos, a cara tingida de uma vermelhidão apoplética⁵. A Leocádia, que era quem lhe ficava mais perto, soltou-lhe um murro nas costas.
O glutão arremessou sobre a toalha da mesa o bocado de carne já meio triturado.
Foi um nojo geral.
— Porco! gritou Rita, arredando⁶-se.
— Pois se o bruto quer socar tudo ao mesmo tempo! disse Porfiro. Parece que nunca viu comida, este animal!
E notando que ele continuava ainda mais sôfrego por ter perdido um instante:
— Espere um pouco, lobo! Que diabo! A comida não foge! Há muito aí com que te fartares por uma vez!
(O cortiço, 2016.)
¹ fariscar: farejar.
² sobejo: sobra, resto de comida.
³ sumítico: avarento.
⁴ aferrolhado: escondido.
⁵ apoplético: que sofreu apoplexia (acidente vascular cerebral).
⁶ arredar: recuar.
Possui valor possessivo o pronome sublinhado no seguinte trecho:
- Alternativa A, a correta: “Ele pôs-se logo a devorar, sofregamente, olhando inquieto para os lados, como se temesse que alguém lhe roubasse a comida da boca.” (8º parágrafo)Resposta
- Alternativa B: “— Espere um pouco, lobo! Que diabo! A comida não foge! Há muito aí com que te fartares por uma vez!” (16º parágrafo)
- Alternativa C: “Rita fê-lo entrar e deu-lhe de comer e de beber; mas sob condição de que o esfomeado não se socasse demais, para não rebentar ali mesmo.” (6º parágrafo)
- Alternativa D: “Ele pôs-se logo a devorar, sofregamente, olhando inquieto para os lados, como se temesse que alguém lhe roubasse a comida da boca.” (8º parágrafo)
- Alternativa E: “Rita fê-lo entrar e deu-lhe de comer e de beber; mas sob condição de que o esfomeado não se socasse demais, para não rebentar ali mesmo.” (6º parágrafo)
O que a questão pede: o pronome oblíquo que equivale a um possessivo (seu, sua, dele).
Por que é a letra A: o teste é trocar o pronome por um possessivo. Em "alguém lhe roubasse a comida da boca", o "lhe" se liga a "boca", parte do corpo de Libório: "alguém roubasse a comida da sua boca". A troca funciona, então o pronome tem valor possessivo.
Por que as outras não:
- B "te fartares": pronome reflexivo do verbo fartar-se. Não indica posse de nada.
- C "não se socasse": reflexivo, o esfomeado enche a si mesmo.
- D "pôs-se a devorar": o "se" faz parte do verbo pôr-se, que indica início de ação.
- E "deu-lhe de comer": o "lhe" é o destinatário de dar (deu a ele), objeto indireto. Não há como trocar por "seu" ou "sua".
A armadilha: o erro mais provável é a letra E, porque também traz "lhe". O que decide é a troca: "deu de comer a ele" (destinatário) contra "a comida da boca dele" (posse).
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