FGV 2026.1Questão 16de 60No texto, as expressões "corpo a corpo" (1º. parágrafo) e "idas e vindas" (3º. parágrafo)
LinguagensDenotação, Conotação e Polissemia
Numeração da prova tipo 1.
Texto das questões 16 a 20
A IA e a banalização da arte
[...]
- Como escritor, estou ciente dos efeitos positivos que a inteligência artificial possa trazer na área da ciência, da tecnologia e em diversos campos do conhecimento. Mas escrevo também da perspectiva de um artista preocupado com os efeitos adversos que poderão incidir sobre a relação, a um tempo delicada e estreita, que todo criador forçosamente mantém com sua arte. A tal ponto que, por vezes, me pergunto se não seremos parte da última geração a levar adiante uma prática existente desde que o mundo é mundo e a arte é arte: o corpo a corpo entre o criador e sua obra.
- Nessa relação estreita, conflituosa e amorosa entre um autor e seu trabalho existe todo um milagre que dá origem a determinado resultado, seja ele romance, composição musical, obra associada ao campo das artes plásticas, da dança ou de qualquer outra manifestação no âmbito artístico. Tal prática exige do criador, antes de mais nada, o mais profundo recolhimento.
- Sem isso, o impulso original, a ideia que, no limite, antecede a própria obra, não tem condições de aflorar e florescer. Mais importante: sem as dúvidas, os retrocessos, as experimentações; sem os receios e hesitações tão comuns quando da construção de um enredo ou de uma linha melódica; sem os equívocos, que também fazem parte, sem as idas e vindas, sem as noites mal dormidas, nada ou muito pouco acontece que corresponda à verdade pessoal de um criador. É isso que a inteligência artificial matará no berço, como grande facilitadora que é. Pois não é outra sua função, fora facilitar, agilizar, ganhar tempo, atingir determinado objetivo.
- Mecanicamente.
[...]
(Edgard Telles Ribeiro, https://www.academia.org.br. Adaptado.)
No texto, as expressões "corpo a corpo" (1º. parágrafo) e "idas e vindas" (3º. parágrafo)
- Alternativa A: são sinônimas
- Alternativa B: são antônimas
- Alternativa C: têm sentido literal
- Alternativa D, a correta: têm sentido conotativoResposta
- Alternativa E: são exemplos de coloquialismo
A questão pede a classificação de duas expressões usadas pelo autor: "corpo a corpo" (1º parágrafo) e "idas e vindas" (3º parágrafo).
Localizando as expressões no texto:
- "o corpo a corpo entre o criador e sua obra" (fim do 1º parágrafo);
- "sem os equívocos, que também fazem parte, sem as idas e vindas, sem as noites mal dormidas" (3º parágrafo).
Analisando o sentido de cada uma:
"Corpo a corpo" é, em sentido próprio, o combate travado com os corpos em contato, como na luta ou no futebol. No texto, não há corpo nenhum: o que existe é o embate do artista com a obra que ele cria, o esforço de enfrentá-la. O sentido foi deslocado do literal para o figurado.
"Idas e vindas" designa, em sentido próprio, deslocamentos físicos de ir e voltar. No texto, aparece numa lista com "dúvidas", "retrocessos", "experimentações", "receios e hesitações", todas de natureza mental. Significa, portanto, os avanços e recuos do processo criativo, e não caminhadas.
Nomeando o recurso:
Quando a palavra se afasta do seu sentido literal (denotativo) e assume um sentido figurado construído pelo contexto, temos o sentido conotativo. É exatamente o caso das duas expressões, e é o que as aproxima.
Analisando cada alternativa:
A) Incorreta. Sinônimas seriam expressões de sentido equivalente, substituíveis uma pela outra. "Embate com a obra" e "avanços e recuos do processo" não são a mesma coisa; a primeira nomeia o enfrentamento, a segunda o vaivém das tentativas.
B) Incorreta. Antônimas seriam de sentidos opostos, e não há oposição entre elas: as duas descrevem, de ângulos diferentes, o mesmo trabalho artístico.
C) Incorreta. É justamente o contrário do que ocorre. No sentido literal teríamos contato físico e deslocamento no espaço, nada disso está em jogo no texto.
D) Correta. Ambas foram empregadas em sentido figurado, isto é, conotativo.
E) Incorreta. Coloquialismo é marca de linguagem informal, da fala do dia a dia. O texto é de registro culto e formal ("forçosamente", "no âmbito artístico", "aflorar e florescer"), e as duas expressões são consagradas, não gírias.
Conferindo a alternativa:
O traço comum às duas expressões é o emprego em sentido figurado, o que corresponde à alternativa D.
Confere com o gabarito oficial preliminar da FGV. Ver o caderno da banca
