FGV 2026.1Questão 27de 60Nos últimos parágrafos do excerto, o narrador descreve, figuradamente, sua preparação para escrever a obra, como
LinguagensDenotação, Conotação e Polissemia
Numeração da prova tipo 1.
Texto das questões 26 a 28
I
A Hora
Da Estrela
A culpa é minha
ou
A hora da estrela
ou
Ela que se arranje
ou
O direito ao grito
.Quanto ao futuro.
ou
Lamento de um blue
ou
Ela não sabe gritar
ou
Uma sensação de perda
ou
Assovio no vento escuro
ou
Eu não posso fazer nada
ou
Registro dos fatos antecedentes
ou
História lacrimogênica de cordel
ou
Saída discreta pela porta dos fundos
Clarice Lispector, A hora da estrela.
II
- Quero neste instante falar da nordestina. É o seguinte: ela como uma cadela vadia era teleguiada exclusivamente por si mesma. Pois reduzia-se a si. Também eu, de fracasso em fracasso, me reduzi a mim mas pelos menos quero encontrar o mundo e seu Deus. Quero acrescentar, à guisa de informações sobre a jovem e sobre mim, que vivemos exclusivamente no presente pois sempre e eternamente é o dia de hoje e o dia de amanhã será um hoje, a eternidade é o estado das coisas neste momento.
- E eis que fiquei receoso quando pus palavras sobre a nordestina. E a pergunta é: como escrevo? Verifico que escrevo de ouvido assim como aprendi inglês e francês de ouvido. Antecedentes meus do escrever? Sou um homem que tem mais dinheiro que os que passam fome, o que faz de mim de algum modo desonesto. E só minto na hora exata da mentira. Mas quando escrevo não minto. Que mais? Sim, não tenho classe social, marginalizado que sou. A classe alta me tem como um monstro esquisito, a média com desconfiança de que eu possa desequilibrá-la, a classe baixa nunca vem a mim.
- Não, não é fácil escrever. É duro como quebrar rochas. Mas voam faíscas e lascas como aços espelhados.
- Ah que medo de começar e ainda nem sequer sei o nome da moça. Sem falar que a história me desespera por ser simples demais. O que me proponho a contar parece fácil e à mão de todos. Mas a sua elaboração é muito difícil. Pois tenho que tornar nítido o que está quase apagado e que mal vejo. Com mãos de dedos duros enlameados apalpar o invisível na própria lama.
- [...]
- Por enquanto quero andar nu ou em farrapos, quero experimentar pelo menos uma vez a falta de gosto que dizem ter a hóstia. Comer a hóstia será sentir o insosso do mundo e banhar-se no não. Isso será coragem minha, a de abandonar sentimentos antigos já confortáveis.
- Agora não é confortável: para falar da moça tenho que não fazer a barba durante dias e adquirir olheiras escuras por dormir pouco, só cochilar de pura exaustão, sou um trabalhador manual. Além de vestir-me com roupa velha rasgada. Tudo isso para me pôr ao nível da nordestina. Sabendo no entanto que talvez eu tivesse que me apresentar de modo convincente às sociedades que muito reclamam de quem está neste instante mesmo batendo à máquina.
Clarice Lispector, A hora da estrela. Adaptado.
Nos últimos parágrafos do excerto, o narrador descreve, figuradamente, sua preparação para escrever a obra, como um processo de
- Alternativa A: transe
- Alternativa B, a correta: asceseResposta
- Alternativa C: ensandecimento
- Alternativa D: regressão à infância
- Alternativa E: conversão ao Catolicismo
O recorte do enunciado:
A pergunta delimita o trecho: os últimos parágrafos, isto é, o 6 e o 7. E avisa que a descrição é figurada, o narrador não está relatando um fato, está construindo uma imagem para o que significa preparar-se para escrever.
Etapa 1. O que o narrador diz que vai fazer:
Reunindo as ações anunciadas nos dois parágrafos finais:
| Passagem | O que ele se impõe |
|---|---|
| "quero andar nu ou em farrapos" | despojamento material |
| "experimentar [...] a falta de gosto que dizem ter a hóstia" | privação sensorial |
| "Comer a hóstia será sentir o insosso do mundo e banhar-se no não" | renúncia levada ao extremo |
| "abandonar sentimentos antigos já confortáveis" | renúncia ao conforto afetivo |
| "não fazer a barba durante dias" | abandono do cuidado com a aparência |
| "adquirir olheiras escuras por dormir pouco" | privação de sono |
| "só cochilar de pura exaustão" | levar o corpo ao limite |
| "vestir-me com roupa velha rasgada" | despojamento, de novo |
Oito ações, e todas na mesma direção: tirar, nunca acrescentar.
Etapa 2. O nome desse processo:
Ascese é justamente isso: a disciplina de privação voluntária, do corpo, dos prazeres, dos confortos, praticada como caminho de purificação e preparo para algo superior. O termo vem da tradição religiosa (monges, eremitas, jejuns), e o texto está encharcado desse vocabulário: hóstia, nu, farrapos, abandonar.
O parágrafo 6 até nomeia o objetivo em linguagem mística:
Etapa 3. Para que serve essa ascese:
O próprio narrador declara a finalidade, e ela é o que fecha a interpretação:
Não é misticismo por misticismo. Ele se despoja porque precisa se aproximar da condição de miséria de Macabéa para poder narrá-la. A privação é método de trabalho, e é nesse sentido que a descrição é figurada: ele não vai virar monge, vai usar a linguagem da ascese para nomear o esforço de escrever sobre quem não tem nada.
Etapa 4. Descartando as outras quatro:
| Alternativa | O que caracterizaria | Por que não é o caso |
|---|---|---|
| Transe | perda do controle, arrebatamento, êxtase | O narrador está lúcido e deliberado: "quero", "tenho que", "será coragem minha". Tudo é escolha consciente. |
| Ensandecimento | perda da razão, delírio | Não há confusão mental. Ele argumenta sobre as próprias dificuldades com clareza. |
| Regressão à infância | volta a comportamentos ou a um tempo anterior | Nada no trecho remete à infância; as privações são de adulto. |
| Conversão ao Catolicismo | adesão de fé, aceitação de doutrina | O vocabulário é religioso, mas o fim é literário ("me pôr ao nível da nordestina"), não devocional. |
A alternativa E é a armadilha bem construída da questão: a hóstia está lá, e é fácil confundir o empréstimo de imagens religiosas com adesão religiosa. Mas o narrador quer "experimentar pelo menos uma vez a falta de gosto que dizem ter a hóstia", o "dizem ter" o coloca de fora, como quem nunca comungou e observa a prática à distância. Não é um fiel se convertendo; é um escritor tomando emprestado um vocabulário de renúncia.
Analisando cada alternativa:
A) Incorreta. Transe implica perda de controle, e todas as ações são deliberadas: "quero andar nu", "tenho que não fazer a barba", "será coragem minha".
B) Correta. O narrador enumera privações voluntárias de corpo, aparência, sono e conforto, com finalidade declarada de purificação e aproximação, o que define ascese.
C) Incorreta. O trecho é lúcido e argumentativo; não há delírio nem perda da razão.
D) Incorreta. Nenhuma imagem do trecho remete à infância ou a um retorno a estágio anterior.
E) Incorreta. O vocabulário é religioso, mas o narrador se posiciona de fora da prática ("a falta de gosto que dizem ter a hóstia") e declara finalidade literária: "para me pôr ao nível da nordestina".
Conferindo a alternativa:
Privações voluntárias de corpo, sono e conforto, com fim de purificação, definem ascese, alternativa B.
Confere com o gabarito oficial preliminar da FGV. Ver o caderno da banca
