FGV 2026.1Questão 28de 60“As palavras podem mudar de classe gramatical sem sofrer modificação na forma. A este processo de enriquecimento

LinguagensMorfologia

Numeração da prova tipo 1.

Texto das questões 26 a 28

I
A Hora

Da Estrela

A culpa é minha

ou

A hora da estrela

ou

Ela que se arranje

ou

O direito ao grito

.Quanto ao futuro.

ou

Lamento de um blue

ou

Ela não sabe gritar

ou

Uma sensação de perda

ou

Assovio no vento escuro

ou

Eu não posso fazer nada

ou

Registro dos fatos antecedentes

ou

História lacrimogênica de cordel

ou

Saída discreta pela porta dos fundos

Clarice Lispector, A hora da estrela.

II

  1. Quero neste instante falar da nordestina. É o seguinte: ela como uma cadela vadia era teleguiada exclusivamente por si mesma. Pois reduzia-se a si. Também eu, de fracasso em fracasso, me reduzi a mim mas pelos menos quero encontrar o mundo e seu Deus. Quero acrescentar, à guisa de informações sobre a jovem e sobre mim, que vivemos exclusivamente no presente pois sempre e eternamente é o dia de hoje e o dia de amanhã será um hoje, a eternidade é o estado das coisas neste momento.
  2. E eis que fiquei receoso quando pus palavras sobre a nordestina. E a pergunta é: como escrevo? Verifico que escrevo de ouvido assim como aprendi inglês e francês de ouvido. Antecedentes meus do escrever? Sou um homem que tem mais dinheiro que os que passam fome, o que faz de mim de algum modo desonesto. E só minto na hora exata da mentira. Mas quando escrevo não minto. Que mais? Sim, não tenho classe social, marginalizado que sou. A classe alta me tem como um monstro esquisito, a média com desconfiança de que eu possa desequilibrá-la, a classe baixa nunca vem a mim.
  3. Não, não é fácil escrever. É duro como quebrar rochas. Mas voam faíscas e lascas como aços espelhados.
  4. Ah que medo de começar e ainda nem sequer sei o nome da moça. Sem falar que a história me desespera por ser simples demais. O que me proponho a contar parece fácil e à mão de todos. Mas a sua elaboração é muito difícil. Pois tenho que tornar nítido o que está quase apagado e que mal vejo. Com mãos de dedos duros enlameados apalpar o invisível na própria lama.
  5. [...]
  6. Por enquanto quero andar nu ou em farrapos, quero experimentar pelo menos uma vez a falta de gosto que dizem ter a hóstia. Comer a hóstia será sentir o insosso do mundo e banhar-se no não. Isso será coragem minha, a de abandonar sentimentos antigos já confortáveis.
  7. Agora não é confortável: para falar da moça tenho que não fazer a barba durante dias e adquirir olheiras escuras por dormir pouco, só cochilar de pura exaustão, sou um trabalhador manual. Além de vestir-me com roupa velha rasgada. Tudo isso para me pôr ao nível da nordestina. Sabendo no entanto que talvez eu tivesse que me apresentar de modo convincente às sociedades que muito reclamam de quem está neste instante mesmo batendo à máquina.

Clarice Lispector, A hora da estrela. Adaptado.

Mesmo texto:262728

“As palavras podem mudar de classe gramatical sem sofrer modificação na forma. A este processo de enriquecimento vocabular pela mudança de classe das palavras dá-se o nome de derivação imprópria”.

https://www.aulete.com.br/, Celso Cunha, Gramática básica do português contemporâneo.

Dois exemplos desse processo ocorrem no trecho:

  1. Alternativa A: "a eternidade é o estado das coisas neste momento". (1º. parágrafo)
  2. Alternativa B: "Sou um homem que tem mais dinheiro que os que passam fome". (2º. parágrafo)
  3. Alternativa C: "O que me proponho a contar parece fácil e à mão de todos". (4º. parágrafo)
  4. Alternativa D, a correta: "Comer a hóstia será sentir o insosso do mundo e banhar-se no não". (6º. parágrafo)Resposta
  5. Alternativa E: "Agora não é confortável: para falar da moça tenho que não fazer a barba durante dias". (7º. parágrafo)
Resolução do Jazz

O conceito, antes da análise:

Derivação imprópria é a mudança de classe gramatical de uma palavra sem nenhuma alteração na sua forma. Não se acrescenta prefixo nem sufixo: a palavra é a mesma, e só a função muda.

O sinal mais comum dessa mudança é o artigo. Colocado diante de uma palavra que não é substantivo, ele a substantiva:

Palavra originalClasse originalCom artigoNova classe
jantarverboo jantarsubstantivo
azuladjetivoo azulsubstantivo
simadvérbioo simsubstantivo
porquêconjunçãoo porquêsubstantivo

Atenção ao que não é derivação imprópria: acréscimo de sufixo (feliz → felicidade) é derivação sufixal; acréscimo de prefixo (feliz → infeliz) é derivação prefixal. Aqui a forma tem de permanecer intacta.

Etapa 1. A exigência de DOIS exemplos:

O enunciado pede o trecho em que ocorrem dois casos. Isso é decisivo: uma alternativa com apenas uma ocorrência, mesmo correta, não atende ao pedido.

Etapa 2. O trecho da alternativa D:

"Comer a hoˊstia seraˊ sentir o insosso do mundo e banhar-se no na˜o."\text{"Comer a hóstia será sentir } \textbf{o insosso} \text{ do mundo e banhar-se } \textbf{no não} \text{."}

Os dois casos:

Primeiro, "o insosso":

insosso  =  adjetivo  ("um caldo insosso")  ⟶  o insosso  =  substantivo\text{insosso} \;=\; \textbf{adjetivo} \; (\text{"um caldo insosso"}) \;\longrightarrow\; \text{o insosso} \;=\; \textbf{substantivo}

Precedido do artigo "o", passa a nomear uma qualidade tomada como coisa: a insipidez do mundo. A forma não mudou em nada.

Segundo, "no não":

na˜o  =  adveˊrbio de negac¸a˜o  ⟶  o na˜o  =  substantivo\text{não} \;=\; \textbf{advérbio de negação} \;\longrightarrow\; \text{o não} \;=\; \textbf{substantivo}

Em "banhar-se no não", a contração "no" (em + o) traz o artigo embutido. Um advérbio não pode ser complemento de "banhar-se"; só um substantivo pode. E o teste da flexão confirma: os nãos, um plural que só existe porque a palavra virou substantivo.

Dois casos no mesmo trecho, exatamente o que o enunciado pede.

Etapa 3. O teste que confirma:

Três verificações rápidas, aplicáveis a qualquer suspeita de derivação imprópria:

Teste"o insosso""no não"
Vem precedido de artigo?sim, "o"sim, embutido em "no"
Aceita plural de substantivo?os insossosos nãos
Ocupa função de substantivo?sim, objeto de "sentir"sim, complemento de "banhar-se"

Etapa 4. Por que as outras quatro não servem:

AlternativaTrechoAnálise
A"a eternidade é o estado das coisas neste momento""eternidade", "estado", "coisas" e "momento" já são substantivos. Nenhuma mudança de classe.
B"Sou um homem que tem mais dinheiro que os que passam fome""os que" é artigo + pronome relativo introduzindo oração adjetiva substantivada. Não há palavra trocando de classe sem mudar de forma.
C"O que me proponho a contar parece fácil e à mão de todos"Mesma estrutura de B. "Contar" está em locução verbal ("proponho a contar"), sem artigo, continua verbo.
E"Agora não é confortável: para falar da moça tenho que não fazer a barba"Aqui há um caso defensável: "Agora", advérbio, funciona como sujeito. Mas é apenas um, e o enunciado exige dois. "Falar" e "fazer" seguem em locução verbal, sem artigo.

A alternativa E é a mais perigosa justamente por ter um exemplo válido. O critério que a elimina não é a natureza do caso, e sim a contagem.

Etapa 5. Um detalhe a mais no trecho correto:

Vale notar que a alternativa D ainda contém um terceiro fenômeno da mesma família: "Comer a hóstia será sentir...", o infinitivo funciona como sujeito da oração, o que também é substantivação. Não é preciso invocá-lo para responder, já que "o insosso" e "o não" bastam e são os casos mais nítidos por virem marcados por artigo, mas ele reforça que este é o trecho em que Clarice mais concentra o recurso.

Analisando cada alternativa:

A) Incorreta. Todas as palavras plenas do trecho já pertencem à classe em que aparecem; não há mudança alguma.

B) Incorreta. "Os que passam fome" é oração adjetiva substantivada, construção diferente da derivação imprópria, nenhuma palavra isolada muda de classe.

C) Incorreta. Mesma estrutura da alternativa B, e "contar" permanece verbo dentro da locução "me proponho a contar".

D) Correta. "O insosso" (adjetivo substantivado pelo artigo) e "no não" (advérbio substantivado pelo artigo em "no") são dois casos de mudança de classe sem alteração de forma.

E) Incorreta. Contém um caso defensável ("Agora" como sujeito), mas o enunciado exige dois, e os infinitivos "falar" e "fazer" estão em locução verbal, sem artigo que os substantive.

Conferindo a alternativa:
"O insosso" e "no não" trocam de classe gramatical sem mudar de forma, e são dois no mesmo trecho, alternativa D.

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Pergunta

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Morfologia

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